Mariana, MG. 2015 - foto: Thiago Gimenes

fotografia, realidade e manipulação

muita se fala hoje em dia sobre “purismo” e que defende a “fotografia como ela é”.  o problema é que essa é uma linha um pouco tênue demais (para não dizer inexistente), já que a fotografia já é, por definição, um recorte da realidade sob a ótica do fotógrafo e defender que a fotografia é realidade e não aceita “manipulação” é, no mínimo, um desconhecimento. então vamos abordar essa questão por partes (ou níveis).

 

verdade vs. realidade

quando a gente começa a estudar os pensadores da imagem e mais especificamente da fotografia, começamos a entender que, embora haja muitas formas diferentes de enxergar a fotografia uma coisa vai ficando cada vez mais clara (e aqui vou ousar não citar nenhum autor específico e sim o que eu entendi de tudo o que venho estudando durante os anos): a fotografia reflete a VERDADE do autor, ou seja do fotógrafo, sobre a REALIDADE dos fatos que se apresenta diante dele. isso é facilmente demonstrável quando vemos imagens completamente diferentes, com enfoques diferentes, histórias diferentes de fotógrafos que estavam no mesmo lugar, cobrindo o mesmo fato. prometi que não ia citar nenhum autor, mas se você ficou interessado nesse tema, sugiro muito procurar ler o que Boris Kossoy diz sobre a 2ª realidade. já que tiramos o “elefante branco da realidade” da sala, vamos agora falar da manipulação em níveis mais práticos e técnicos.

variedade de filmes fotográficos
Hoje restritas, mas antigamente as opções de filmes eram muito amplas. Foto: pxfuel
escolhendo suas armas

antigamente (digo, na fotografia analógica, que para mim e para tantos ainda é presente nos dias atuais), quando saíamos de casa com uma câmera na mão já estávamos, antes mesmo de fazer a primeira foto, manipulando o resultado final, através da escolha do filme. além do ISO (ou ASA), poderíamos colocar um filme PB e já estaríamos desprezando as cores da cena fotografada logo de início, se saíssemos com um filme tungstênio para fotografar na luz do dia, estaríamos manipulando o equilíbrio de brancos e dando um tom azulado para as fotos (alguém aí falou em filtro de instagram?). na época do filme a variedade de opções era quase infinita e a variação de texturas (grão), e cores era enorme e o fotógrafo já tinha que tomar essa decisão antes de sair de casa, tendo em mente que suas fotos teriam a influência do filme escolhido.

essa é, obviamente, uma escolha obrigatória. Se não escolhemos o filme, não podemos fazer uma foto, portanto é uma “manipulação” necessária.

 

cena espontânea ou cena produzida

o que fotografar? qual é o objetivo? que tipo de sensações você quer passar ao expectador? com quanta paciência você está para esperar pela foto que tem na cabeça? o quanto a sua ética pessoal influencia nesse processo. o quão mais fácil seria produzir essa foto? 

 

momento decisivo ou momento das decisões?

escolhido o filme, vamos à foto (isso sem contar os fotógrafos que pre-sensibilizavam o filme: aqui tem um descritivo – em inglês – do passo-a-passo do processo. Henri Cartier-Bresson, o mestre do fotojornalismo “criador do momento decisivo” jamais manipularia uma imagem certo? será? pulando a parte da escolha do filme, a hora que ele vê uma cena, está com a câmera no rosto. esse é o grande momento, o momento decisivo? sim, justamente porque é a hora de tomar a maioria das decisões que vão influenciar no seu resultado final. e mais uma vez, TODAS essas decisões são obrigatórias, sem elas não é possível fazer a foto (ou, nos dias de hoje, pode se usar o AUTO da câmera, mas isso não quer dizer que a decisão não foi tomada, só quer dizer que quem tomou essas decisões foi o engenheiro que projetou o sistema automatizado).

  • distância focal: dita o quão perto ou longe você (e o expectador) vão estar da cena. também tem efeito direto sobre a distorção dos objetos e perspectivas.
  • enquadramento: o que entra no quadro, o que vai fazer parte daquele momento (e principalmente o que NÃO entra no quadro)
Kevin Carter vulture and child
Foto de Kevin Carter isolando um fato de seu contexto rendeu um prêmio Pulitzer e muita polêmica. Fonte: wikipedia
  • foco e profundidade de campo: o que vai sair no foco e o que vai ficar desfocado, o quão nítidos estarão os elementos que não estão no plano do foco. (muito útil para “isolar” algum objeto e desprezar outros).
  • velocidade do obturador: esse recorte no espaço da foto é também um recorte no tempo e o fotógrafo define quanto tempo vai durar esse instante. o momento do pulo na poça d’agua vai ficar com o borrão característico do movimento rápido ou vai ficar congelado, suspenso no ar?
  • momento do clique: após tomar todas essas decisões (ou fazer essa série de manipulações) o fotógrafo ainda precisa decidir o momento exato de fazer o disparo. e na maioria das vezes (inclusive para Cartier-Bresson) eram necessários vários disparos para se obter uma “obra prima”. porém, segundo o próprio Cartier-Bresson, esse momento era inconsciente, todas as decisões técnicas já devem estar feitas, prontas e tomadas, para que na hora do clique não haja pensamento, apenas instinto. eu acho isso particularmente bonito e um tanto libertador também.
Folha de contato extraída do livro Magnum Contacts mostra que HCB fez 16 fotos para chegar a uma de suas obras-primas (nota do autor: isso é libertador). Fonte: Petapixel
revelação e edição:

acabado o filme, o fotógrafo ia para o laboratório, onde faria a revelação. mais uma série de decisões (manipulações do resultado final) são tomadas obrigatoriamente:

  • quais químicos utilizar
  • qual o tempo de cada banho
  • o tempo e a quantidade de “agitações” durante os banhos
  • “puxar” o filme para cima ou para baixo (e quantos pontos)
  • revelar cromo em processo cruzado?
  • revelar PB com químicos para revelação colorida?
  • fazer uma solarização?
  • entre tantos outros processos e “gambiarras” possíveis de se fazer em um laboratório

antes de seguir adiante, vou ressaltar que esse processo analógico é praticamente o mesmo que fazemos hoje na fotografia digital, com algumas pouquíssimas adaptações (eu diria facilidades), como “revelar” o arquivo RAW utilizando softwares como o Adobe Lightroom (que inclusive tem seu nome vindo de uma analogia com o “darkroom” do laboratório fotográfico) , Adobe Camera RAW ou Capture 1.

Instruções para o laboratorista fazer a ampliação: lembrou os pincéis de ajuste?. Fonte: fstoppers

com negativos (ou positivos) em mãos, vamos escolher quais fotos ampliar o que vai pro papel e como. esse é o processo de edição, é onde nós vamos decidir qual dos momentos decisivos é realmente o mais decisivo (mais uma manipulação). e aí mais uma dica do nosso querido Henri Cartier-Bresson: o momento da edição é como um sismógrafo de emoção, a gente consegue enxergar o momento sendo construído até seu ápice e depois essa onda começa a dissipar. tendo isso em mente o processo de edição fica MUITO mais fácil, pois é “apenas” o processo de procurar os picos de emoção dos momentos, aquele onde o maior número de elementos se encaixam para que a mensagem da fotografia seja entendida da forma mais clara.

 

ampliação (ou melhor, Photoshop analógico):

é aqui que as coisas começam a ficar MUITO interessantes. durante o processo de ampliação de um negativo ou cromo para o papel, várias coisas podem ser feitas, coisas que poucos dos que se dizem “puristas” de hoje sabem. eu vou listar alguns exemplos, tomando o cuidado de manter o nome utilizado no Photoshop. nos links no final do post tem alguns outros posts, inclusive com vídeos mostrando o processo todo:

  • o tempo que o negativo (ou positivo) vai ficar no ampliador vai definir o quanto daquele original vai passar para o papel. menos tempo, mais clara a foto (e com menos detalhes, e vice-versa).
  • crop – onde é decidido mudar a proporção, cortar elementos indesejáveis ou “endireitar” uma foto “torta”
  • dodge e burn – clarear/escurecer áreas selecionadas da imagem, como fazemos com os pincéis de ajustes, aumentando, inclusive o alcance dinâmico da imagem (não do meio, obviamente)
  • máscaras duras ou “seleções” esfumaçadas – dava para fazer máscaras de papel preto para deixar áreas mais claras ou escuras ou tapar a luz do ampliador com as mãos mesmo.
  • blur e unsharp mask – embaçar ou aumentar a nitidez de uma imagem fora de foco
  • montagens diversas, como colocar um elemento de outra foto, tirar a cabeça de uma pessoa e aplicá-la em outra…
  • depois de ampliado, haviam ainda retocadores especializados em tirar pequenas imperfeições da cópia impressa com tinta ou mesmo retocar o cromo com aerógrafo, num trabalho extremamente cuidadoso.

todas essas decisões sobre manipulação não devem ser vistas como a intenção de enganar e iludir ou de criar algo que não existe na realidade e sim como formas de o autor da imagem expressar a sua verdade, seu senso de autoria. é possível tratar a fotografia como uma ciência exata, respeitando absolutamente todas as regras, todas as equações de entrada de luz, todos os tempos dos negativos ou da revelação digital e passar isso para o papel com todas as fórmulas químicas adequadas? sim, claro que é possível, mas temos que lembrar 2 coisas sobre isso: fazer isso também é em si uma decisão de autoria e revela sim uma visão de mundo (bem peculiar e cartesiana, aliás, que seria interessante de ver em um trabalho). a outra coisa é que essas regras e leis são descritivas e não prescritivas, quer dizer, elas descrevem um processo em que o resultado será previsível, para que quem não conhece o ofício consiga um resultado satisfatório. isso não quer dizer que é “o certo”.

nenhuma fotografia é imparcial, nenhuma fotografia é “realidade” assim como a pintura não era, nem nenhuma forma de arte. a fotografia reflete o olhar do fotógrafo. 

eu descrevi aqui esse “workflow” analógico apenas para mostrar que a manipulação sempre existiu e sempre vai existir. A grande diferença para os dias de hoje é que todo mundo conhece pelo menos o nome da ferramenta: Photoshop. 

Salvador Dali por Philippe Halsman
Salvador Dali por Philippe Halsman
Retratos de Philippe Halsman (Salvador Dali e Clint Eastwood): isso não é fotografia? fonte: philippehalsman.com
os grandes fotógrafos

fotógrafos como Man Ray e Philippe Halsman levaram essas técnicas ao extremo para produzir resultados surrais, utilizando duplas exposições, recortes e sobreposições e mesmo assim ninguém hoje em dia ousa dizer que o que eles fizeram é “ilustração analógica” (como dizem que a fotografia manipulada é “ilustração digital”). ao contrário, eles estão em qualquer livro de história da fotografia como grandes mestres e referências. outros como Ansel Adams, Henri Cartier-Bresson, Elliot Erwitt, Robert Dosneou e Sebastião Salgado, usaram todos os meios disponíveis no laboratório fotográfico para ter o melhor resultado final possível, para ter as imagens que eles tinham na cabeça. será que se eles tivessem à disposição uma ferramenta com o poder e a facilidade do Photoshop teriam a desprezado em nome do “purismo”? sinceramente, eu duvido.

Trabalho experimental de Man Ray o colocou entre os grandes fotógrafos. Fonte: wikipedia
então quer dizer que pode tudo?

não, pera… não é bem assim. eu acho que cada um tem que ser livre para fazer o que quiser, como quiser e não se meter no processo de autoria do coleguinha. se você fizer, sabendo o que está fazendo, com a intenção de atingir um resultado premeditado (ou até se estiver experimentando técnicas), acho que tudo é válido. 

os problemas nesse campo para mim são 2 e bem distintos: 

  • honestidade: não dá pra mentir, mentir é feio em qualquer lugar e na fotografia não é diferente. dizer que não fez algo que fez, dizer que é algo que não é, nunca vai ser bacana. burlar regras de concursos que não permitem determinadas técnicas, também não né? principalmente quando falamos de fotojornalismo, é essencial manter todo o processo o mais claro e transparente possível. nós não queremos “contaminar” a fonte, como fez recentemente o famoso Steve McCurry, negando que tenha feito manipulações que estavam até grosseiras e jogando dúvida sobre o trabalho sério de toda uma indústria de fotojornalistas.
  • o outro ponto que quero chamar a atenção se refere às “experimentações” de filtros e presets na pós-produção. não por isso ser um problema em si, mas por uma crença minha de que o conhecimento nos faz melhores e quem simplesmente vai comprando pacotes de presets e “evolui” sua pós-produção de preset em preset acaba não aprendendo sobre todo o processo de construção de uma imagem (seja ela analógica ou digital) e está preso ao que os outros criam e distribuem. é um desperdício de autoria e uma forma de se acomodar em um lugar confortável, porém muito limitado e limitante. 

esse texto eu escrevi originalmente em 2013 e é maluco como algumas coisas mudaram nesses anos de fotografia e educação em fotografia e outras não mudaram nada. no fundo eu acho que os fotógrafos estão muito mais preocupados em apontar dedos do que apontar as lentes e clicar. muito mais preocupados com o que os outros vão pensar do que em entender realmente seu processo autoral. tentando fazer exatamente O QUE o colega faz sem saber o PORQUE ele faz (e o pior, sem saber seu próprio PORQUE). 

acho que essa é a grande reflexão nossa de cada dia.

 

+ info e referências:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Man_Ray

http://philippehalsman.com

http://strobist.blogspot.co.uk/2013/02/how-we-got-here-analog-photoshop.html

http://petapixel.com/2012/12/29/headless-portraits-from-the-19th-century/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Kevin_Carter

https://petapixel.com/2016/05/25/contact-sheets-story-behind-every-photo/

https://fstoppers.com/post-production/how-photos-were-edited-darkroom-days-2994

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